Escavações na comunidade do Jacarequara identificam sambaqui fluvial com vestígios de moradia, rituais e hábitos alimentares de povos pré-coloniais na Amazônia Oriental
Fragmentos de cerâmica, conchas acumuladas ao longo de séculos, ossos de animais e pequenos artefatos esculpidos em pedra estão ajudando a reconstruir parte da história antiga de Barcarena. Pesquisas realizadas na comunidade do Jacarequara, na Ilha de Trambioca, apontam que o território foi ocupado há cerca de 2.700 anos.
O trabalho integra o projeto “Florestas Culturais e Territorialidades na Amazônia Oriental Pré-Colonial”, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em parceria com instituições internacionais. As escavações identificaram camadas arqueológicas formadas por amontoados de conchas, áreas de terra preta com fragmentos cerâmicos, sementes, carvões e vestígios ósseos, elementos que permitiram estimar a antiguidade da ocupação humana na região.
De acordo com os pesquisadores, o local foi classificado como um sambaqui fluvial — tipo de sítio arqueológico caracterizado pelo acúmulo intencional de conchas e outros materiais ao longo de gerações. Embora sambaquis sejam mais comuns em áreas costeiras, na Amazônia eles aparecem associados a processos culturais relevantes, inclusive ao desenvolvimento e à consolidação da produção cerâmica.
No Jacarequara, foram identificados múltiplos eventos de deposição de conchas na estratigrafia do solo, além de cerâmicas que apresentam características tecnológicas semelhantes às encontradas em sambaquis da região do Salgado paraense, mas com elementos decorativos que dialogam com tradições arqueológicas do Marajó. Esses indícios reforçam a importância do território como espaço de moradia e, possivelmente, de realização de rituais e eventos coletivos.
As escavações também revelaram pistas importantes sobre a alimentação dos antigos habitantes. A presença de ossos de fauna aquática e terrestre indica uma dieta diversificada, baseada na pesca e na caça, evidenciando que a área era rica em biodiversidade. Amostras de solo foram coletadas para análises de geoquímica, micromorfologia e arqueobotânica, que devem contribuir para identificar espécies vegetais utilizadas na alimentação, na produção de medicamentos e até na construção.
Parte do material já passou por procedimentos iniciais de higienização e catalogação. A próxima etapa do projeto envolve análises laboratoriais mais aprofundadas, incluindo estudos de zooarqueologia, exames cerâmicos e identificação de vestígios microscópicos, como grãos de amido preservados em peças encontradas durante as escavações.
Além da produção científica, o sítio-escola instalado na área também tem papel formativo. A iniciativa possibilitou que estudantes de pós-graduação vivenciassem a prática de campo, participando de atividades como mapeamento do terreno, escavação, limpeza e classificação de vestígios, além do uso de equipamentos de sensoriamento remoto. A experiência também promoveu intercâmbio entre pesquisadores brasileiros, estrangeiros e a comunidade local.
As escavações realizadas entre julho e agosto ampliaram o entendimento sobre as dinâmicas de ocupação humana na Ilha de Trambioca. Cada vestígio retirado do solo funciona como um registro material que ajuda a compreender modos de vida, tecnologias e relações com o ambiente estabelecidas há milênios na Amazônia Oriental.
A reportagem tem como base informações publicadas por Cintia Magno, no Diário do Pará.
