Possibilidade de nova estiagem intensa aumenta preocupação com restrições à navegação, transporte de cargas pelo Arco Norte e abastecimento de comunidades que dependem do rio
Após dois anos marcados por secas severas na Amazônia, as condições de navegabilidade do Rio Tapajós voltam a exigir atenção. Apesar da recuperação parcial dos níveis dos principais rios da região, a possibilidade de uma nova estiagem intensa em 2026 amplia a preocupação com os impactos sobre o transporte de cargas e o abastecimento de populações que dependem das vias fluviais.
Entre os fatores acompanhados pelo setor está a possível ocorrência do El Niño. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, o fenômeno pode provocar alterações no regime de chuvas, prolongar períodos de seca e contribuir para a redução das vazões dos rios.
No Tapajós, a diminuição do nível das águas pode agravar limitações naturais existentes em determinados trechos. Entre os principais problemas estão a redução do calado disponível para as embarcações, a formação de bancos de areia e mudanças nos canais de navegação.
A situação preocupa especialmente pela importância da hidrovia para o transporte de cargas pelo Arco Norte. Restrições ao tráfego de embarcações podem afetar a eficiência das operações e provocar reflexos ao longo da cadeia logística.
“O setor trabalha com cautela elevada. A combinação de níveis que voltaram a cair durante a vazante e a possibilidade de um El Niño excepcionalmente forte pode aumentar significativamente a pressão sobre as hidrovias”, afirma Gabriel Azevedo, diretor-presidente da Associação dos Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport).
MENOS CARGA E MAIS VIAGENS
As condições de navegação no Tapajós variam conforme o nível do rio, o volume de chuvas e a intensidade da vazante. Com o avanço da estiagem, uma das consequências pode ser a necessidade de redução da quantidade de carga transportada por viagem.
Na prática, a limitação exige maior número de deslocamentos para movimentar o mesmo volume de produtos, aumentando custos e o tempo das operações.
Segundo Azevedo, situações mais críticas também podem provocar medidas mais restritivas. “Em cenários mais severos, não se pode descartar a possibilidade de restrições operacionais mais rígidas, interrupções temporárias ou até mesmo a paralisação da navegação em determinados períodos e trechos”, acrescenta.
IMPACTOS PODEM CHEGAR ÀS COMUNIDADES
Uma eventual seca severa não afetaria apenas o transporte de cargas. Comunidades que utilizam os rios como principal meio de deslocamento e abastecimento também podem sentir os efeitos da redução da navegabilidade.
Em localidades mais isoladas, dificuldades no transporte fluvial podem interferir na chegada de alimentos, combustíveis, medicamentos e outros produtos essenciais, além de contribuir para o aumento dos preços.
Nesse contexto, ações preventivas passam a ter maior importância. A dragagem de manutenção é apontada como uma das medidas capazes de contribuir para preservar a profundidade dos canais e oferecer condições mais seguras de navegação em pontos considerados críticos.
O acompanhamento permanente dos níveis dos rios, o planejamento antecipado das operações e a adoção de medidas de contingência também são considerados fundamentais para reduzir possíveis impactos econômicos, logísticos e sociais.
A manutenção da navegabilidade do Tapajós é estratégica tanto para o escoamento da produção pelo Arco Norte quanto para as populações que têm no transporte fluvial uma parte essencial de sua rotina e do acesso a produtos básicos.
